quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cassiano Ricardo

A Rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Vania Gondim

Maus presságios

Será mesmo que sabe o que faz,
quem deixa o cais de um porto seguro,
e se aventura nos mares de uma paixão?

Talvez esqueça que os mares são traiçoeiros,
em tempos de tempestades, são muitos os ventos,
é possível perder o rumo e até mesmo a embarcação

Quando perceber está no meio do oceano
não seguiu as lições de bons marinheiros
que escutam os avisos do tempo,
fugindo de nuvens negras e passageiras

Quando entender pode ser muito tarde
enveredar-se na ilusão de uma paixão
restando apenas o triste naufrágio,
desaparecendo para nunca mais.

VaniaGondim

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

VaniaGondim

Coloridos reversos

quero este laço
entrelaçando teus braços
no aconchego do ninho

quero este riso
com gosto de sol
cheiro de sal
entre algas verdes marinho

quero as cores dos versos
dançar os reversos
de um novo arco-íris

sábado, 5 de setembro de 2009

Artur da Távola

TEMPO

Hoje eu sou poesia,
Pedaço de nuvem
Nas mãos do teu dia.

Eu sou amargura,
Espaço de espanto
Num céu de loucura.

Hoje eu quero ser jardim,
Temporada de espanto
No sorriso de teu sim.

Agora vai ser a vez
Da esperança sem lança,
Da amizade sem força,
Do afago sem sexo,
Do sexo sem falsa noção de esmagar.

Chegou o tempo
De ser
E amar

Cecília Meireles

Á HORA EM QUE OS CISNES CANTAM ...


Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono ...
Benevolência. Inconseqüência. Inexistência.

Paz dos que não tem fé, nem carinho, nem dono ...
Todo perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono ...
Esmola que faz bem ... – nem gestos, nem violência ...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
Abstrações. Vão temores de saber. Lento, lento
Volver de olhos, em torno, augurais e espectrais ...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Lê? Tu? Sim Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais ...

Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas
1923

FlaVcast

Chuva
04.09.09

Chove em minha janela
Chove forte e bate de frente
Com meu silencio desfecho
Em pingos diretos
...batem
A explodirem como coroas

Depois...
Acalma o vento
Sua fala é baixa tensão
Se fossem azuis
Rosas... azuis
Perfumariam a noite
Em pingos de sons.

Oswaldo Antônio Begiato

CINZAS DA SANIDADE

Varro o chão
Onde caíram as palavras comportadas
Que por entre dedos gélidos
De minhas mãos rudes
Deixei escapulir, por obstinação.

Junto-as e cremo-as.

As cinzas, entrego-as ao vento;
Leve-as ele para bem longe de mim,
Fantasma que são
Do poema reto
Que não me permiti consumar.

Não lapido as palavras.
Não destilo as palavras.

As lapidadas,
Deixo-as aos jovens apaixonados.
As destiladas,
Aos que delas se tornaram amantes incorrigíveis.

Quero-as selvagens,
Cheias de quinas e fios,
Cheias de doenças e vícios,
Para que quando brotarem de dentro de mim
Rasguem-me a carne,
Contaminem-me o sangue
E façam-se poemas tortos:
Eles me conferem vida intensa.

Não quero, pois, o poema da breve paixão,
Nem o da paixão amancebada:
Eu vou é me casar, para sempre, com o Cântico Negro.

Roberto Marinho de Azevedo

Quando Partes

Quando partes, não fogem as andorinhas,
Mas diabos espertos se instalam
Sob os móveis, tecendo mil intrigas
Como magras megeras desdentadas.
Quando te vais, não calam as avezinhas,
Mas começam a piar iniquidades.

Carlos Drummond de Andrade

Soneto da perdida esperança
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Carlos Drummond

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Jandira Grillo

ARREPENDIMENTO

Se ao coração que chora fora dado
Em dose,embora escassa de beber,
A taça misteriosa do esquecer,
Quanto ser viveria embriagado.

Viver embriagado do viver,
E não lembrar jamais o que é lembrado,
Lembrar somente e apenas com cuidado
Que o cuidado maior é o de esquecer.

Divina fantasia de quem ama,
Tolher a chama ,quando a vida é chama
Matar a sede,quando a sede é de arte.

O intimo mistério de querer-te!
Maior que a própria pena de perder-te
Foi o arrependimento de buscar-te!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

James Joyce

Poema XXXIV

Durma agora, durma agora
fala meu inquieto coração
a voz chora: “durma agora”
É se faz ouvir no meu coração.
A voz do vento
se ouve na porta
Oh durma, para esperar a pri-ma-ve-ra
que está chorando: “Durma agora”.
Meu beijo trará a paz
E aquietará o coração
Durma agora em paz.
Oh inquieto coração.

James Joyce
Tradução: Eric Ponty

Anibal Beça

CÂNTICO DE CÂNTARO

Meu canto é fluvial
é cântico das águas
de cântaro canoro
enviesando várzeas.

Carrego em bilha ou pote
nossas moringas de águas
lamentos e benditos
num rosário de mágoas.

Comigo vai o canto
Que eu levo dentro da alma
Canto levado de espanto
Encantado que me acalma

Nas estações do verde
ciclos de nossas águas
marés cheias no outono
um verão de águas baixas.

Adélia Prado

"Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo."

sábado, 15 de agosto de 2009

Manuel Bandeira

A Camões

Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil trizteza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

Reversos da vida

Reversos da vida

viro páginas
vento frio
preciso agasalhar

faço versos
sinto os reversos
seguirei a cuidar

cruzo esquinas
acendo velas
sinto fogo incendiar

VaniaGondim

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Índice Julho 2009

Explicando: Eu me calo - o clip

Fiz este clip de um poema de Oswaldo Antônio Begiato, dedicado ao meu filho André, de 27 anos, após seu transplante de duplo pulmão – Outubro/2008, musicado pelo seu pai, Sinédei Moura, e transformado por mim num clip de agradecimentos: em primeiro lugar a Deus, em segundo aos Deuses de todos os Sóis, em terceiro, pela coragem, força e alegria que aprendo a cada dia com a minha estória, e com a de todos que estão em minha volta, e a mim transmitem bons fluidos.

Amém.

Eu me calo

sábado, 4 de julho de 2009

Emiliana Delmina

ALMAS QUE SE BUSCAM


Como ao impulso material buscamos
um ser eleito, um emotivo ser,
assim nossa alma, sem que o percebamos,
busca outra alma que a saiba compreender.

São peregrinas que permutam ramos
da do bem querer.
E, nessas horas, sem dormir, sonhamos
raras delícias que nem sei dizer.

É o aroma sutil da afinidade
isenta de paixão ou de ansiedade,
envolvendo dois seres imortais.

É sentimento puro, imaculado,
essência sem veneno do pecado,
é sidérea poesia – nada mais.

Emiliana Delminda
in Folhas Caídas

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rubem Alves

A palavra é o começo de tudo.
Com a palavra o universo começou.
Com a palavra,nós começamos.
Somo poemas encarnados.
Somos as estórias que moram em nós.
Se as estórias que moram em nós
formarem estórias belas,seremos belos
e bons.
Toda palavra genuína,deve nascer do silêncio.
Não posso crer nas declarações de solidariedade
daqueles que não frequentam a solidão da sua
própria consciência.

(Rubem Alves)

Paulo Leminski

AMOR BASTANTE

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Paulo Leminski

sábado, 20 de junho de 2009

Tereza Lima Gondim

Partitura

palavra instrumento
desafogo ao coração
espelha o sentimento

em si mesmo percute
musicando em bemóis
pouco a pouco semitom

mudança e sustenido

da à vida o seu sentido

Tereza Lima Gondim

VaniaGondim



Partituras

Gosto todas as vezes que você chega
sem me avisar

Passo horas, dias, anos...
nesta espera lenta
como um rio que chora
lamento de solidão na correnteza
sem barco pra navegar

Gosto quando a noite é de lua
vejo meu reflexo em seus olhos
imagino quanto tempo
ainda terei que esperar

Já passaram décadas... milênios
vislumbro cada estação
mudando o cheiro das flores
temperando todas as cores
acalmando minha inquietação

Gosto quando você chega
trazendo na mala novos versos
partituras de novas canções.

VaniaGondim

Ópera dos interior - Jaak Bosmans

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Tereza Lima Gondim

Soma

Se... reflete na realidade
a vida é um sonho
Mas só para mim? não é verdade...

Cada instante é um renascer
Em cada renascimento um novo dia
O que é de ontem lá ficou

Agora a cumplicidade

Lágrima e sorriso é o que somou

Américo Sidnei Rissato

Frio do Inverno

Meu Deus! Que frio! Que inverno!
Será que estou mesmo vivendo?
O frio é demais meus pés estão congelados.
Será que não morri e estou no inferno?

Não, creio que não, na verdade frio esta o meu coração.
Ademais o inferno deve ser quente pra diabo
E se for quente mesmo como afirmam os que crêem
Por favor, que para lá me leve, quem sabe por ele serei amado.

Autor: (Américo Sidnei Rissato)

sábado, 13 de junho de 2009





Amar
As vezes é viver pelo avesso
De tropeço aos tropeços
É sentir-se num abismo
Em arremessos pelos começos

Amar
Quantas contradições
Oras cumplicidades, oras desunião
Momentos de muitos prazeres
Outros de traições

E nessa luta sem fim
Uns vivem de aventuras
Outros de solidão

VaniaGondim

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dez em canto




coração
ferido
ausência
constante

alegria
sem riso
melodia
sem canção

felicidade
aparente

que
aconteceu?

perdi
você.

VaniaGondim


terça-feira, 9 de junho de 2009

JG de Araujo jorge

Vício

Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invades tudo, e é impossível te expulsar
por que então já sou eu que te procuro.

Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
a caminhar a esmo ...

Chegas - como uma crise a um asmático, - e então
[preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não
[te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo ...
alcançar-te é um suplício ...

Teu amor para mim - é humilhante a confissão
-Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
não é amor, é vicio ...


JG de Araujo Jorge

domingo, 7 de junho de 2009

Marina Colasanti


DEBAIXO DOS SEUS CASCOS


Hoje
domingo à noite
nesta sala quieta
desta casa quieta
nessa quieta montanha
o tempo
mais uma vez
finge estar parado
enquanto as horas
mudas
passam a galope.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Lya Luft

Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo, dessa
beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.

Tenho medo de que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

-Charles Chaplin-

"Hoje levantei pensando no que tenho a fazer,
antes que o relógio marque meia noite.
É minha função escolher que tipo de dia vou ter.
Posso ficar triste por não ter dinheiro...
ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças.
Posso reclamar sobre minha saúde...
ou dar graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais
por não terem me dado tudo...
ou posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar...
ou agradecer por ter trabalho.
Posso lamentar decepções com amigos...
ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.
Se as coisas não saíram como planejei...
posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está na minha frente,
esperando para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma."

"Tudo depende só de mim."

"ÍNDICE DESTE BLOG DE MAIO 2009" (clique nos links)

domingo, 31 de maio de 2009




“Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.“

Emily Dickinson

Alice Ruiz - Coisa tua




Coisa tua
Música: Waltel Branco
Letra: Alice Ruiz

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua

Dueto: Oswaldo Begiato e Vania Gondim


(clique na imagem para vê-la ampliada)

sábado, 23 de maio de 2009

Chico Buarque x Ney Matogrosso - Até o fim

Na beira do mar




Na beira do mar

cada dia
a cada por do sol
ou alvorecer
na beira do mar
o poeta naufraga
sua solidão
seus segredos


cada dia
no colorido da aurora
que sempre tem hora
no dia preciso
na noite indecisa
os amores acontecem
o poeta aparece

VaniaGondim

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Hilda Hilst




Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Hilda Hilst
In:"Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão"

domingo, 10 de maio de 2009

"Para Sempre"

"Por que Deus permite que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,
é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.

Morrer acontece com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça, é eternidade.

Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre junto de seu filho
e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 8 de maio de 2009

puxa-puxa





Se me vejo criança
Sinto o cheiro do engenho
Do bagaço da cana
O barulho
Do raspar do côco
E o sonho
Do puxa-puxa

As primas em rebuliço
Esperando o ponto
A hora certa
Do puxa-puxa

Cada uma com sua quenga
Com sua porção
De raspas de côco
Esperando a hora
Do puxa-puxa

E chegado a hora
A hora do puxa
Puxa
Repuxa
O puxa-puxa

VaniaGondim


quarta-feira, 6 de maio de 2009

Semeadores de Desvelos - Oswaldo Antônio Begiato

ILHA DE CORAL




Por momentos me deste a sensação
de terra firme.

Cansado da inquietação do mar,
do balanço das ondas, dos horizontes inumeráveis,
eu me airei a ti, como um náufrago,
e teu corpo não me soube apenas à praia providencial,
mas a um país de tranquilidade
há tanto tempo esperado...

Ilusão...Eras uma pequena ilha, de morna areia
e traiçoeiros corais,
onde todo me feri na ânsia de salvar-me
e que logo desapareceria sob a maré cheia,
para nunca mais...

J.G.de Araújo Jorge

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Raízes

Vania Gondim

o gosto por pensar a vida em versos
os reversos
os sonhos
e sentir a vida sempre bela
herança de minha mãe

meu pai era o Gondim,
não o poeta
dele herdei o nome
a retidão constante
no tratar a vida

VaniaGondim

Poeminha Amoroso - Cora Coralina

silêncio na madrugada





na madrugada
estrelas luzindo
no vazio
o silêncio
vai
emudecendo
os pássaros
nossos passos
voam

Vania Gondim

MÁRIO QUINTANA

PASSANDO DOS CINQÜENTA

Meu pescoço se enruga.
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.

Marina Colasanti

SERENO ALGOZ - OSWALDO ANTÔNIO BEGIATO



Parceira da lua, como a lua
Cheia minguando o luar, nua
Cheira a flor do campo:
Alecrim que nasceu à beira
De uma estrada passageira
Por onde eu já caminhei.

Muita falta faz esta luz de luar,
Parceira na hora do caminhar,
A quem já se acostumou a tê-la.
E este perfume de campo que contagia:
- Sereno algoz extraído da nostalgia.

E como é precisa a luz de luar
Preciso também é paciente suportar
A ausência, nos contatos por pensamento;
A presença, nas lembranças em movimento;
A espera, no tempo que vai passar,
Dos rastros que vão se formar.

Há uma cor que gosto de ver.
Há uma dor que gosto de sentir.
Há uma aventura que gosto de viver.
Há uma estrada pela qual vou partir.

São espinhos que me guiam;
São pedras que proíbem limites;
São esperanças que se recriam.

É um desejo que se espalha:
- A vontade imensa de te ver!

Auto Retrato

Tereza Lima Gondim


não me pinto não me faço
- olhos garços de criança -
janela aberta que me vê
mudam de tom a cada instante

amarelo verde da montanha
esverdeado da correnteza
estampado de lembranças
retratam às vezes incerteza

cores mutantes nessa busca
mostruário em um caminho
quem sou... para onde vou?

o ponto visível serei eu?
se não sou e não me faço
me imaginem nos meus versos

A ROSA - A CONCHA ROUSIA -RICARDO SANT'ANNA REIS (vídeo de Nadia Stabile)

ADÍLIA LOPES

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes

UMA FLOR ANDANDO EM PARIS... - RONALDO FRANCO (vídeo de Nadia Stabile)

Canção desse Rumor

LYA LUFT

Quem - estando ausente - entra no quarto
Quem deita ao lado meu, quem passa
No meu coração seus lábios quentes, quem
Desperta em mim as feras todas
Quem me rasga e cura
Quem me atrai?

Quem murmura na treva e acende estrelas
Quem me leva em marés de sono e riso
Quem invade meu dia após a noite
Quem vem – estando ausente -
E nunca vai?

LYA LUFT

"CORA CORALINA"

Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura... enquanto durar.

(Cora Coralina)

Retrato - Cecilia Meireles

CURVAS

Oswaldo Antônio Begiato

Nas tuas montanhas insondáveis e vastas
(Nádegas, seios e malícias)
Vagam minhas entranhas fecundas e castas
(Ventre, umbigo e delícias),
Por isso supor-lhe-á o mundo desvios tantos
(Volúpias, coxas e desejos),
A encher-lhe de insuportáveis e belos prantos
(Saudades, perdões e beijos).

Em tuas tenras e leves pétalas rasgadas
(Esterco, broto e tesão),
Nas tuas raízes à flor da terra e mal regadas
(Chuva, tardes e verão),
Renasço, livre como o vento, em tuas pegadas
(Areia, estrada e destino)
E me entrego a ti virgem e feliz como chegadas
(Sorriso, bocas e menino).

Com as mãos cheias de chaves, me libertas
(Elos, cadeados e segredos)
E no teu colo proibido e repleto de ofertas
(Sono, abandono e medos),
Zonzo pelos labirintos de tua sã mente
(Poemas, livros e mais ninguém),
Repouso, sem prisões, minha cabeça demente
(A loucura é o meu maior bem).

ASAS DE SEDA - ELIANA PONTES (vídeo de Nadia Stabile)

Ninguém me canta como você

ALICE RUIZ

ninguém me canta
como você
ninguém me encanta
como você
nem me vê
do jeito
que só você
de que adianta
ter olhos
e não saber ver
ter voz
mas não ter o que dizer
digam o que disserem
façam o que quiserem
ninguém diz
ninguém vê
ninguém faz
como você
ninguém me canta
ninguém me encanta
como você

"Alice Ruiz"